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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II


Guiné > Região de Gabu  > Carta de Madina do Boé (1958) (Escala  1/50 mil)  (Esta carta ainda não  está disponível  "on line" no nosso blogue) > Posição relativa de Madina do Boé, a 12 km da fronteira da Guiné-Conacri, a sul. Era rodeada de pequenas colinas, que iam dos 100 aos 200 metros de altitude. A amarelo, algumas das cotas. Os rios eram sazonais. A região semidesértica, mas impraticável no tempo das chuvas. Sem qualquer povoação, no tempo da guerra. As poucas que haviam desapareceram.  Distâncias: Madina do Boé até à fronteira, a leste (Vendu Leidi) > 60 km; Cheche-Madina: 20 km; Cheche- Béli > 35 km.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil > Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil,  CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e Cheche.



Guiné > Região de Gabu > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) > 1967 > A "Fonte da Colina de Madina", construída em 1945, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues. Foto do álbum do Manuel Coelho, o grande fotógrafo de Madina do Boé; aliás, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68); natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem c. 50  referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) | Sócio da Liga dos Combatentes nº 80.393 | Colaborador permanente da Tabanca Grande | Histórico do nosso blogue | Vai a caminho das 500 referências | VIve em Odivelas.


Madina do Boé: contributo para sua história

por José Martins

OS HOMENS

Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre maio de 1965 e 6 fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.


Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da atual Guiné-Bissau.

A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em julho de 1964 e ficou instalada em Bissau. 

Posteriormente foi transferida para Bula (Janeiro de 1965) e Contuboel (Março de 1965). Foi colocada em Madina do Boé em maio de 1965 onde permaneceu até abril de 1966, quando terminou a sua comissão de serviço.



A CCAV 702 foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, atualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em agosto de 1965. 

Posteriormente, em maio de 1966 foi substituir a CCAV 702 em Madina do Boé, onde permaneceu até abril de 1967, quando terminou a sua comissão de serviço.




A Companhia de Caçadores nº 1589 – Batalhão de Caçadores nº 1894, formada no Regimento de Infantaria 15, em Tomar (uma das unidades que mobilizou militares para a I Grande Guerra), chegou à Guiné em agosto de 1966, ficando instalada em Bissau. 

Daqui foi enviada para Fá Mandinga em dezembro de 1966 e para Madina do Boé, para substituir a CCaç 1416, em abril de 1967, onde permaneceu até janeiro de 1968, altura em que foi transferida para Nova Lamego, e, em março de 1968 foi enviada para Bissau onde permaneceu até maio de 1968, altura em que terminou a sua comissão de serviço.


CMIL 15

Em Pirada, em março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas. 

Não existe registo para onde foi transferida depois de retirada de Madina. Foi desactivada em dezembro de 1971.


A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar. 

Quando chegou à Guiné em outubro de 1967 ficou estacionada em Fá Mandinga. Daqui foi transferida para Madina do Boé em janeiro de 1968 onde permaneceu até 6 de fevereiro de 1969, seguindo nesta data para Nova Lamego e em abril de 1969 foi transferida para S. Domingos, onde se manteve até ao final da sua comissão de serviço em julho de 1969. 

Esta unidade tinha um destacamento em Beli, que foi mandado regressar e juntar-se à companhia em junho de 1968.


O LOCAL

Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar. 

Sei que só aterrámos depois de dois bombardeiros T 6, que nos escoltaram a partir da altura do Rio Corubal, terem feito uma observação dos locais onde era normal estarem e/ou atacarem o aquartelamento os elementos do PAIGC. Íamos buscar o Padre Libório, alferes graduado capelão do Batalhão de Caçadores nº 2835, que tinha estado junto daquela unidade durante alguns dias.

As instruções do furriel que pilotava a aeronave foram precisas: "assim que o aparelho parar,  saltas e corres para junto dos abrigos".

Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.

Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.

A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.


A RETIRADA

A saída da zona do Boé começou em junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé (CCAÇ 1790). 

Participei nessa operação, como pira já que ainda não tinha um mês de Guiné, para visitar os destacamentos de Canjadude e Cheche, locais que se encontravam guarnecidos por forças da CCAÇ 5, unidade em que fora colocado como Sargento de Transmissões.

A minha missão terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.

Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.

Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.

Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.

Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então brigadeiro António de Spínola, que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche. 

Nessa região ficariam instaladas forças de intervenção, seria construída uma pista para aviões do tipo Dakota, além de uma jangada para a travessia do rio. As canoas, que seriam a estrutura base dessa jangada, passariam mais tarde por Canjadude, em mais uma das muitas colunas que por lá passaram, tendo como destino o Cheche.

Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de fevereiro de 1969. 

A coluna constituída por cinquenta e seis viaturas foi escoltada, entre outras forças, por elementos da Companhia de Caçadores nº 2405 – Batalhão de Caçadores nº 2852,  forrmado no Regimento de Infantaria nº 2.

DESASTRE DO CHECHE

Constou, na altura, que tinha havido uma alteração na "ordem de operações". Previa-se que, aquando da travessia do Corubal, as últimas unidades a atravessar o rio seriam as de armas pesadas, ao contrário do que se verificou, que foram tropas de infantaria.

Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.

A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes. 

Da agitação resultou o desequilíbrio da jangada e a queda nas águas de uma parte substancial dos homens que estavam a ser transportados na mesma. O receio era de que tivessem sido seguidos à distância por forças IN e que as mesmas estivessem a preparar um ataque à jangada, que se deslocava lentamente.

A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.

Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.

Naquela tarde de 6 de fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

OS HERÓIS/MÁRTIRES

É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal (18 da CCAÇ 2405,  28 da CCAÇ 1790 e 1 civil guineense) (realce a amarelo, a companhia que retirou de Madina do Boé, a CCAÇ 1790; e a CCAÇ 2405, a azul marinho, uma das companhias que fez a escolta da coluna):


Furriéis Milicianos (n=2)

  • Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
  • Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405


Primeiros-cabos (n=7)
  • Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
  • Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
  • Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
  • Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790
  • José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
  • José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790

Soldados (n=37) 
  • Abdul Embaló, natural de São José, Bissorã - CCAÇ 1790
  • Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
  • Alfa Jau, natural da Guiné - CCAÇ 1790
  • Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
  • Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790
  • António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
  • António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
  • António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
  • António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
  • António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – CCaç 1790
  • Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
  • Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
  • Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
  • David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
  • Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Indique Imbuque, natural de Farol, Bissorã  – CCAÇ 2405
  • Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
  • Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
  • José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
  • José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
  • José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
  • José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
  • José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
  • José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – V. N. Famalicão – CCAÇ 1790
  • José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
  • José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
  • José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
  • Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
  • Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
  • Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
  • Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
  • Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo ou selzedelo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
  • Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
  • Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
  • Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405

Civis (n=1)
  • Um caçador nativo não identificado

José Martins 
Janeiro de 2006

(Revisão / fixação de texto, negritos, realces, links, título: LG)
_________

Nota do editor L.G.

(1) Útimo poste da série > 22 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I


Guiné> Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude >  "Aeroporto da Portela de Canjadude, 2-11-68 - CCAÇ 5, CART 2338". Sentado na placa toponímica, em pedra, o fur mil enf João Carvalho, CCAÇ 5 (1973/74) e hoje farmacêutico. c. 1973/74.

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude >  CCAÇ 5 > "Vista geral do aquartelamento... Foto tirada de cima duma das grandes pedras existentes em Canjadude. Em Abril de 1973, as NT são surpreendidas por um ataque certeiro de 6 foguetões 122 mm... Mais uma escalada na guerra". Foto do álbum do João Carvalho, um histórico da Tabanca Grande para a qual entrou há 20 anos, em 23/1/2006.

Fotos (e legendas): © João Carvalho (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 


José Martins, nosso
colaborador permanente,
tem 490 referèncias no blogue;
participou na Op Mabecos
Bravios, no apoio de retaguarda
1. Textos de José Martins, ex-fur mil trms,  CCAÇ 5 (Canjadude, 1968/70), que voltamos a reproduzir, em duas partes (na II parte publica-se a lista dos 47 mortos no desastre de Cheche)


A retirada de Madina do Boé 

por José Martins
 

A minha "ligação" a Madina é pequena mas muito intensa. Escrevi este texto em 2000, trinta anos após o meu regresso: faz parte de um livro não editado, que escrevi (e continuo a escrever), pois que todos os 
dias surgem histórias e estórias que faz desta compilação de emoções um livro nunca acabado.

O mês de fevereiro de 1969 tivera início há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude [entre Nova Lamego e Cheche], uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. 

Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores n.º 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude.

Esta operação cumpria, da Diretiva n.º 1/68 do Comandante-Chefe, apenas na retirada desta martirizada e heróica companhia da sua isolada posição. 

A base inicialmente prevista para a região do Cheche ficar-se-ia pela reunificação da Companhia de Caçadores n.º 5 no seu aquartelamento em Canjadude, ficando este a ser o posto militar mais avançado, no Leste, desde Nova Lamego até á zona do Boé.

Esta operação contava com cinquenta e seis viaturas, uma vez que a retirada de Madina envolvia a recolha e transporte de todo o material que fosse possível recuperar.

Em 6 de fevereiro de 1969, as tropas até então estacionadas em Madina do Boé e as das companhias que tinha escoltado o comboio de viaturas, iniciavam o regresso. Estava, assim, consumado o abandono do local.

Chegados à margem sul do Rio Corubal, do lado oposto ao Cheche, tinha de se utilizar uma jangada constituída por um estrado assente em três grandes canoas e auxiliado, na travessia, por um barco com motor fora de borda, um "sintex".

A operação era perigosa, dado que as viaturas tinham de descer uma rampa em direcção ao rio, entrando na jangada utilizando pranchas e, após a travessia, sair de novo sobre pranchas e subir a ravina que partia do rio.

Eram cerca das seis da tarde do dia 5 quando se iniciou a travessia, que se estendeu por toda a noite e pela manhã do dia seguinte.

As companhias estacionadas em Canjadude (CCAÇ 5 e CART 2338) estavam em alerta e preparadas para prestar todo o apoio necessário e possível a esta operação. 

Havia que estabelecer um controlo para o parqueamento das viaturas dentro do perímetro do arame farpado e, em conjunto com os comandantes das companhias empenhadas na operação, indicar-lhes os locais em que deviam pernoitar, estas sim, em zonas em redor do destacamento e aldeamento.

Na operação estavam envolvidos centenas de efectivos e, sendo conhecedores de que na região não havia água, foi destacada, para a estrada entre Canjadude e Cheche, uma viatura com cerca de quinze bidões de água, para que os soldados fossem abastecidos.

Tocou-me o comando da escolta a esta viatura, tendo-me posicionado a cerca de cinco a sete quilómetros de Canjadude. Quando começaram a passar os militares que vinham na frente da coluna, notei que algo de estranho se tinha passado. Os soldados passavam cabisbaixos e praticamente ninguém aproveitou para se abastecer de água. Constatara, também, que havia um silêncio rádio, apesar de ter entrado na frequência da operação.

No regresso ao aquartelamento, soube que tinha havido um desastre na travessia do Rio Corubal, com um elevado número de mortes. As causas ainda eram muito obscuras. O necessário era providenciar apoio aos militares das companhias que tinham sofrido as baixas, alguns dos quais ainda se encontravam em estado de choque.

Fui, na qualidade de furriel de transmissões [da CCAÇ 5], encarregado de saber, interrogando os graduados das companhias atingidas, os nomes e patentes das vítimas, a fim de ser dado conhecimento aos escalões superiores, nomeadamente ao Quartel General, em Bissau.

Fui anotando, um a um, os nomes das vítimas. Entrecortados por soluços, os nomes foram sendo recordados pelos camaradas e, terminada a pesquisa, contei quarenta e sete nomes: quarenta e seis militares – dois furriéis, sete cabos, trinta e três soldados metropolitanos, quatro do recrutamento provincial - e um milícia.

Era um dia negro. Sentei-me no Centro Cripto, peguei no livro de codificações rápidas e transcrevi, para o impresso de mensagem, o texto cifrado que indicava que os nomes a seguir pertenciam aos militares mortos no acidente.

Procurei o comandante do destacamento, capitão Pacífico dos Reis e, em silêncio, entreguei-lhe a mensagem para assinar, sendo esta devolvida sem que fosse trocada qualquer palavra.

Momentos depois, no mais profundo silêncio possível, no posto de rádio, a voz pausada e comovida do radiotelefonista lançava ao ar, via VHF, os quarenta e sete nomes, como se fosse um toque a finados.

Pouco tempo depois, como que impulsionados por uma mola, começaram a chegar ao Centro de Mensagens pedidos de envio de telegramas para a Metrópole, em que os remetentes diziam estar de boa saúde, embora cheios de saudade.

Pretendiam com isto serenar os seus familiares, para que ao receberem o telegrama soubessem que estavam bem e de saúde. 

Esses telegramas não foram emitidos. Não valia a pena. Na metrópole só muito dias depois se soube deste desastre, e, se os telegramas saíssem da companhia, decerto que os escalões seguintes nunca lhes dariam seguimento.

Mais de vinte e cinco anos depois, o Diário de Notícias editou uma cassete vídeo, com uma reportagem no local, em que intervinham o tenente coronel José Aparício e o jurista Gustavo Pimenta, ao tempo capitão e alferes miliciano da CCAÇ 1790.

Já não era o primeiro vídeo que via sobre a Guerra do Ultramar, mas este falava de algo que eu tinha vivido, este reproduzia uma fase da minha própria vida de militar, e não me trazia boas recordações. 

Só nessa altura soube que a queda desordenada na água de muitos dos militares que se encontravam na jangada estava relacionada com o som de uma saída de morteiro, não identificado nem localizado, que tinha lançado o pânico.

Entretanto o meu filho mais velho, o Tiago, entrou na sala e respeitou o que viu. Eu estava a chorar. As lágrimas corriam-me pela face sem as poder conter. Pelo ecrã corriam os nomes que, anos antes, no desempenho das minhas funções de sargento de transmissões, tinha manuscrito em mensagem.

Os heróis de muitos combates tinham morrido afogados e, ainda hoje, os onze que foram recuperados duas  semanas depois, descansam lá longe, em país agora estrangeiro, nas ravinas que servem de margem ao Rio Corubal.

José Martins, 3 de Setembro de 2000

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

(Continua)
_____________

Nota do editor LG:

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25530: O Cancioneiro da Nossa Guerra (18): CCAÇ 5, Canjadude: (i) o Hino dos Gatos Pretos; (ii) Binóculos de Guerra (José Martins, 1968/70; João Carvalho, 1973/74)


Guiné > Região do Gabu > Canjadude  (carta de Cabuca, 1959, escala 1/50 mil)> CCAÇ 5 (Gatos Pretos) > 1973 > Interior do "Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude"... O ex- fur mil enf João Carvalho, um histórico da nossa Tabanca Grande, é o terceiro a contar da esquerda... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr....

Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o destacamento de Cheche do lado de cá (margem direita) e... o mítico campo fortitificado de Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de setembro de 1973, não em Madina do Boé, na vasta e desertificada região do Boé, junto à fronteira (se não mesmo para lá da fronteira...), o PAIGC proclama "urbi et orbi", numa  "jogada de mestre", a independência unilateral da nova República da Guiné-Bissau: foi um verdadeiro xeque-mate à diplomacia portuguesa...  O aquartelamento de Madina do Boé, como se sabe, foi retirado pelas NT em 6/2/1969 (Op Mabecos Bravios).

Foto: © João Carvalho (2005). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Caamaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74) > O  fur mil enf João Carvalho (1973/74)  junto a ao Morteiro 81 mm: uma arma poderosa, eficaz, mortífera, quando bem manejada, e apontada para as linhas inimigas... O nosso camarada é hoje farmacêutico.

Foto: © João Carvalho (2006). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Caamaradas da Guiné]



Carta geral da antiga Província da Guiné Portuguesa (1961) (Escala 1/500 mil) > Posições relativas de Nova Lamego, Cabuca, CanjadudeBéli, Ché-Ché (ou Cheche), e Madina do Boé (as duas últimas posições,  na margem esquerda do rio Corubal)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2023)



"Canções da Guerra!", um programa de Luís Marinho, que passou todos os dias, desde meados de outubro de 2015, de 2ª a 6ª feira, na Antena Um, às 14h55. Havia mais de meia centena de canções disponíveis "on line" do portal da RTP. Infelizmente já não há...  Os "podcasts" já não estão "on line" *) 


1. Podemos dizer que há um Cancioneiro da Guiné, o Cancioneiro da Nossa Guerra, composto por letras, de diferentes épocas e sítios, que são sobretudo letras de "canções parodiadas", e com músicas conhecidas, da época: tinham um propósito, não tanto de "contestação, resistência e denúncia", como sobretudo de "humor negro" e "resiliência".

Um ou outro de nós, em pequenos grupos, às tantas da noite, já com uns uísques ou cervejas no bucho, éramos capazes de cantar, tocar ou cantalorar "coisas proibídas" ou "censuradas", como era o caso de algumas canções da guerra colonial / guerra do ultramar que foram recuperadas e relembradas no programa do Luís Marinho, na Antena Um, no último trimestre de 2015 (*)...


2. O nosso camarada, amigo e colaborador permanente do nosso blogue, José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70)  [foto à direita ], colaborou com o Luís Marinho no programa "Canções da Guerra", com duas canções do Cancioneiro da Nossa Guerra, o Hino dos Gatos Pretos e Binóculos de Guerra (integradas no Cancioneiro de Canjadude). (**)

O José Martins recordou, na altura, no programa,  o "making of" destas duas canções. 

Da nossa parte, continuamos recuperar e a juntar numa só série, "O Cancioneiro da Nossa Guerra" (***),  os nossos vários "cancioneiros" (Bambadina, Bedanda, Cachil, Canjadude, Empada,  Gadamael, Gandembel,  Mampatá, Xime, etc.,)  dispersos pelo blogue... 


2.1. CANÇÕES DA GUERRA: Programa da Antena Um

Portal da RTP > Antena Um > "Canções da Guerra": programa de rádio, 2015 > Passava todo os dias, de 2ª a 6ª,  na Antena Um, às 14h55, no último trimestre de 2015.. 

Sinopse:

(...) "A guerra colonial, tendo em conta o seu enorme impacto social, foi motivo de canções.

"Desde o hino 'Angola é Nossa', criado após o início da rebelião em Angola, que levou a uma guerra que durou 14 anos.

"As canções ligadas à guerra, falam da vida dos soldados, da saudade da terra, ou criticam de forma mais dissimulada ou mais directa, a própria guerra.

"De 2ª a 6ª feira, às 14h55 na Antena1, ou nesta página, escute as canções da guerra colonial, enquadradas por uma história. Que pode ser a da própria canção, do seu autor ou de um episódio que com ela esteja relacionado.

"Um programa: António Luís Marinho | Produção: Joana Jorge".

Infelizmente já não está disponível "on line".

https://arquivo.pt/wayback/20151117234402/http://www.rtp.pt/play/p1954/e213787/cancoes-de-guerra


2.2.O Hino dos Gatos Pretos | Antena Um, 17 de novembro de 2015.


Sinopse:

No Leste da Guiné, entre Madina do Boé e Gabu, na altura Nova Lamego, estava instalada, em Canjadude, a Companhia de Caçadores 5.

Eram os Gatos Pretos. O ex-furriel José Martins, conta-nos a história desta companhia e também a do seu hino.


2.3. Binóculos de Guerra | Antena Um, 16 de novembro de 2015

Sinopse: 

Num quartel na região leste da Guiné, Canjadude, numa zona de grande atividade da guerrilha do PAIGC, estava uma companhia africana do exército português, a de Caçadores 5.

A maioria dos oficiais e sargentos era oriunda da metrópole e, nas horas de descanso, criavam-se canções.

O ex-furriel José Martins, que esteve na Guiné entre 1968 e 1970, foi um dos autores de algumas destas canções.

Enviou-nos uma delas, Binóculos de Guerra,  e contou-nos também como nasciam …

(Fonte: Media > RTP  > Canções da Guerra... Com a devida vénia)

Infelizmente já não está disponível "on line" o podcast:

https://arquivo.pt/wayback/20151116232440/http://www.rtp.pt/play/p1954/e213611/cancoes-de-guerra


3. Fichas de unidade > CCAÇ 5

Companhia de Caçadores N.o 5
Identificação:  CCaç 5
Crndt: Cap Mil Inf João Alberto de Sá Barros e Silva | Cap Cav José Manuel Marques Pacífico dos Reis | Cap Inf Manuel Ferreira de Oliveira | Cap Inf António José Guerra Gaspar Borges | Cap Inf Arnaldo Carvalhais da Silveira Costeira  | Cap Cav Fernando Gil Figueiredo de Barros | Cap Mil Inf José Manuel de Matos e Silva de Mendonça

Início: 1abr67 (por alteração da anterior designação de 3* CCaç) | Extinção: 20ago74

Síntese da Actividade Operacional

Em 1abr67, foi criada por alteração da anterior designação de 3ª CCaç.

Era uma companhia da guarnição normal do CTIG, constituída por quadros metropolitanos e praças indígenas do recrutamento local. 

Continuou instalada em Nova Lamego, onde detinha a responsabilidade do respetivo subsetor e se integrava no dispositivo e manobra do BCaç 1856, tendo então pelotões destacados em Canjadude, Cabuca e Ché-Ché.

Ficou sucessivamente na dependência dos batalhões que assumiram a responsabilidade do Sector L3.

Em 14Ju168, foi deslocada para Canjadude, no mesmo sector, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsetor, então criado, tendo então um pelotão destacado em Cabuca até meados de fev69 e sendo substituída mais tarde em Nova Lamego, em 9ago68, pela CCaç 2403. 

Por períodos variáveis, destacou ainda pelotões para reforço temporário de outras guarnições, nomeadamente em Nova Lamego, de meados de abr70 a 21nov70, em Buruntuma, de 21nov70 a 18jun70, em reforço do BCav 2922 e de Copá, de 3ljan71 a princípios de mar71 , em reforço do COT1. 

Efectuou diversas operações de que se destaca a captura de 70 granadas de armas pesadas, 10 minas e 650 quilos de munições de armas ligeiras, na região de Siai.

Em 20ago74, após desactivação e entrega do aquartelamento de Canjadude ao PAIGC, foi desactivada e extinta.

Observações - Tem História da Unidade referente ao período de 1jan70 a 3lju173 (Caixa n."
130 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 629

_______________
 


(...) O isolamento em que nos encontrávamos, a necessidade de ocupar a mente com algo diferente que não fosse a actividade operacional, a tentativa de encurtar a distância que nos separava da metrópole, o sentido de improvisação e muitas mais razões, levaram a que os militares tomassem como suas as músicas em voga, na época, e lhes dessem nova vida, com factos que lhes estavam mais próximos e, sobretudo, que ajudavam a manter um espírito de corpo.

Os textos das canções ou poemas que se seguem, quando não identificam o autor, devem ser considerados de criação colectiva, pois que, se sempre há quem lance a ideia e lhe dê uma forma inicial, será o conjunto a sancioná-la e a transmitir-lhe a forma definitiva. (...)

(***) Último poste a série > 13 de maio de 2024 > Guiné 61/74 - P25515: O Cancioneiro da Nossa Guerra (17): "Isto é tão bera"! (Letra do sportinguista e "caça-talentos futebolísticos", Aurélio Pereira, música da canção cubana "Guantanamera") (Gabriel Gonçalves, ex-1º cabo cripto, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71)

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24742: Ataques ou flagelações com foguetões 122 mm: testemunhos (1): Canjadude, região do Gabu, 27 de abril de 1973: 6 foguetes, mais ou menos certeiros, lançados a 12 km de distância, mas sem consequèncias de maior (João Carvalho, ex-fur mil enf, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", 1973/74)

Guiné > Região de Gabu  > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gato Preto) > Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (o furriel miliciano João Carvalho é o 2º a contar da direita)... 

No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr.... Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o destacamento de Cheche do lado de cá (margem direita) e... a mítica Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... 
 
Depois da retirada de Madina do Boé, em 6 de fevereiro de 1969, de Cheche e de Béli, o aquartelamento de Canjadude, era a posição mais a sul, mantida pelas NT, na região de Gabu, setor de Nova Lamego, a par de Cabuca (mais a nordeste).


Guiné >Região de Gabu > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) > Vista geral do aquartelamento... Em abril de 1973, as NT são surpreendidas por um ataque certeiro de 6 foguetões 122 mm... Mais uma escalada na guerra... 

Fotos (e legendas): © João Carvalho (2005).Todos os direitos reservados. [Edição e kegendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 



Carta geral da antiga Província da Guiné Portuguesa (1961) (Escala 1/500 mil) > Posições relativas de Nova Lamego, Cabuca, Canjadude, Béli, Ché-Ché (ou Cheche), e Madina do Boé (as duas últimas posições,  na margem esquerda do rio Corubal)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2023)

1. Excertos de um aerograma  enviado, a um irmão, pelo João Carvalho (ex-fur mil enf, CCAÇ 5, Canjadude, CCAÇ 5m 1973/74, e hoje farmacêutico; é um dos veteranos do nosso blogue, tendo ingressado na Tabanca Grande em  23/1/2006).

Iniciamos hoje uma série com testemunhos, inéditos ou não, sobre ataques ou flagelações, com foguetões 122 mm (que começaram a ser utilizados pelo PAIGC desde o últim0 trimestre de 1969), 


Canjadude, s/d (c. abril/maio de 1973)


(...) No dia 27 de abril de 1973 às 22h e 50m, estava eu no clube de oficiais e sargentos, a conversar com mais dois furriéis e com o soldado que trabalha lá, quando ouvimos... Bum-bum!!! (dois sons graves, logo seguidos). 

Um dos furriéis virou-se para o outro e disse:

− Não batas com os pés no balcão que é chato. (Quando se bate no balcão, parece uma saída de morteiro.)

Então o outro, com um ar muito espantado, diz:

−  Mas eu não toquei no balcão. 

Ficámos a olhar uns para os outros, assim meio desconfiados, até que chegámos à conclusão que devia ser um ataque pois, de imediato ouvimos um estrondo enorme e o clube abanou por todos os lados. Logo a seguir outro igual. 

Ficámos completamente despassarados e resolvemos sair a correr pela porta principal, porque,  se abrissemos a porta lateral, via-se luz cá de fora e podiam começar a atirar para nós.

Eu vinha em último lugar a correr (semiagachado) a contornar o clube para ir para a vala, quando bati com a cara numa coisa duríssima e caí para trás e em cima do outro furriel que estava ainda no chão e que lhe tinha sucedido o mesmo. 

Levantámo-nos e ele disse que era uma viatura que estava ali parada (nós não víamos o Unimog porque saímos dum sítio com luz e ainda por cima como não havia lua não havia claridade nenhuma e a viatura não costumava estar estacionada naquele lugar).

Contornámos a viatura e metemo-nos na vala, andando ao longo desta para sairmos debaixo dos mangueiros. Olhei para dentro do quartel e vi um clarão enorme acompanhado de um grande estrondo (parecia que estava numa sala com 10 amplificadores ligados ao mesmo tempo). 

Entretanto começaram a sair do quartel morteiradas para o mato e também rajadas de metralhadora, ou seja o fogo era já o nosso.

Um indivíduo que estava na metralhadora Breda, perto de nós, dava uma rajada, parava e depois berrava:

 Filhos disto e daquilo, não querem lá ver ?! Vêm gozar com a velhice ?! ... 

Depois, mais uma rajada e repetia a mesma coisa. Agora, quando me lembro, até dá vontade de rir! O fogo parou e eu e o outro furriel, fomos à enfermaria tratar da cara e dos outros feridos se os houvesse. Fiz um corte no nariz e debaixo de cada vista... o outro furriel tinha cortes um pouco menos profundos...

Um dos furriéis que também estava no clube contou que foi a correr pela parada do quartel e que se meteu dentro de um dos abrigos, tendo entrado pela janela um estilhaço que lhe passou por cima. 



Em conclusão, fomos atacados por 6 foguetões lançados mais ou menos a 12 km daqui. Um deles caiu a uns 300 m do arame farpado, outro mesmo no centro do quartel e os outros mais ou menos em cima do arame farpado. Não faço ideia como é que a 12 km conseguem enfiar com os 6 foguetões praticamente dentro do quartel.

Felizmente não houve nada de grave. Só 3 pessoas é que apanharam com estilhaços, mas já com tão pouca força,  que só tiveram umas feridas superficiais. Houve muitos joelhos esfolados nas valas mas... O foguetão que caiu no meio do quartel, deitou abaixo parte da cozinha, o que não faz mal pois aquilo já estava a cair! 

Este ataque pregou-nos um bom susto mas, com uma sorte incrível, não houve nada de especial. (...)


[ Seleção / adaptação / revisão / fixação de texto / negritos, para efeitos de publicação deste poste no blogue: L.G.]


2. Comentário do editor LG:

Sobre o  foguetão (na realidade, um foguete autopropulsionado) de 122 mm, utilizado pelo PAIGC, deixamos mais algumas notas,  da autoria do nosso especialista em artilharia, o cor art ref Nuno Rubim:

(i)  o sistema era conhecido pelo PAIGC como Arma Especial - Grad: 

(ii) na gíria dos guerrilheiros, também era conhecido como "jacto do povo" e "mulher grande";

(iii) era uma arma de artilharia, de bater zona, e não de tiro de precisão;

(iv) o alcance máximo era de 11.700 m para 40º de elevação;

(v) segundo um relatório do PAIGC a distância maior a que se efectuou tiro, teria sido contra Bolama, em 4 de novembro de 1969, a 9.800 m;

(iv) conforme imagens â esquerda, o foguete dispunha de um perno (assinalado a vermelho ) que, percorrendo o entalhe em espiral existente no tubo, imprimia uma rotação de baixa velocidade afim de estabilizar a vôo; as alhetas só se abriam depois do foguete sair do tubo (cortesia de Nuno Rubim, 2007):

(v) historicamente, os quatros alvos das NT a ser atingidos teráo sidom emn 1969, Bedanda (a 24 de outubro), Bolama (a 3 de novembro), Cacine (a 4 de novembro) e Cufar (a 24 de novembro);

(vi) nº de foguetes previstos: 17 (média, 4,25; máximo, 6, em Bolama; mínimo, 3, em Cacine);

(vii) nº de foguetes utilizados: 15 (dois avariados);

(viii) nº  confirmado de foguetes que atingiram o objetivo: 10 (66,6% de eficácia);

(ix) distância de tiro: 9,8 km (Bolama), 3,4 km (Bedanda), 3,2 km (Cacine) e 2,0 km (Cacine).


O Luís Dias, outro nosso especialista em armamento, acrescentou:

(...) "A arma Katyusha era originalmente a denominação para os foguetões utilizados pelos multi-lançadores, que eram transportados em diversos tipos de camiões. Depois da guerra, os soviéticos aperfeiçoaram estes multi-lançadores, com o surgimento do míssil 122mm BM-21 GRAD, colocados em viaturas diversas e com diverso número de tubos. 

Aperfeiçoaram também um míssil portátil, na origem do anterior, mas ligeiramente mais curto, com o mesmo calibre, com a denominação 9P132/BM-21-P, que era lançado pelo unitubo 9M28/DKZ-B e era este o míssil mais utilizado nos ataques por foguetões na Guiné, pelo menos dentro do território, tendo sido, inclusive, capturadas diversas rampas de lançamento do tipo referido, conforme diversas fotos existentes (CCAÇ 4740, Cufar, 72/74) (...).

_______________

Nota do editor;

(*) Vd. poste de 5 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P482: O ataque de foguetões 122 mm a Canjadude, em abril de 1973 (João Carvalho, ex.fur mil enf, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", 1973/74)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Guiné 61/74 - P22784: O meu sapatinho de Natal (4): o que é feito de ti, camarada Dinis Giblot Dalot (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), o melhor condutor de GMC do mundo ? (Luís Graça)


Guiné > Região de Bafatá  > Sector L1 (Bambadinca)  > Estrada de Bambadinca-Mansambo-Xitole > Ponte do Rio Jagarajá > CCAÇ 2590/ CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)> "Eu, o então Fur Mil Ap Armas Pesadas Inf Henriques, pau para toda a obra, pião de nicas, e o soldado condutor autorrodas Dalot, talvez o melhor condutor de GMC do mundo ou, pelo menos, o melhor que eu alguma vez conheci...  


Foto (e legenda): Luís Graça (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Esposende > Fão > 1994 > A primeira vez que a malta de Bambadinca (1968/71), camaradas da CCAÇ 12, e outras subunidades, como o Pel Caç Nat 52,  adidas ao comando do BCAÇ 2852, se encontrou depois do regresso a casa... Este primeiro encontro foi organizado pelo António Carlão (Mirandela, 1947- Esposende, 2018)  

Mostra-se aqui um pormenor da foto de grupo. Na primeira fila, da esquerda para a direita:

(i) fur mil MAR Joaquim Moreira Gomes, da CCAÇ 12  [, vivia no Porto, na altura ];

(ii) sold cond auto Dinis Giblot Dalot [, empresário, vivia em Aljubarrota, Prazeres].

Na segunda fila de pé, da esquerda para a direita:

(iii) Fernando [Carvalho Taco] Calado, ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 [, vive em Lisboa];

(iv) ex-alf mil manutenção material,  Ismael Quitério Augusto, CCS/BCAÇ 2852 
 [, vive em Lisboa];

(v) ex-fur mil  at inf António Eugénio Silva Levezinho [, Tony para os amigos, reformado da Petrogal, vive  em Martingal, Sagres, Vila do Bispo];

(vi) ex-capitão inf Carlos Alberto Machado Brito, cmdt da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 [, cor inf ref, vivia em Braga, tendo passado pela GNR];

(vii) Pinto dos Santos, ex-furriel mil de Operações e Informações, CCS / BCAÇ 2852,
 [, vivia em Resende].


Foto (e legenda): © Fernando Calado (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estou a rever-te, há 52 anos atrás, na Estrada de Bambadinca-Mansambo-Xitole. Eu e tu, o Dalot, o Dinis G. Dalot, ou melhor, o Dinis Giglot Dalot. Sguramente tu foste o melhor condutor de GMC que eu alguma vez conheci (!). Berliet e GMC nas tuas mãos,  carregadas de sacos de arroz ("bianda"), não ficavam atoladas na famigerada estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole, a menos que rebentassem debaixo de uma mina. E mesmo assim, era preciso que os cabos de aço ou os troncos das árvores não aguentassem... 
 
Reguila, setubalense, franzino, seco de carnes, condutor de pesados na vida civil, com boas manápulas para segurar um daqueles volantes de GMC ou Berliet, apanhaste logo no princípio da comissão, em julho de 1969, cinco dias de detenção. Quem foi o s.... que te deu cinco dias de detenção ?....Certo, por seres reguila, setubalense, condutor de pesados, descendente de franceses, e se calhar por seres o melhor condutor de GMC que eu alguma vez vi na vida... 

Gostava de te rever, Dalot. Sinceramente, gostava de te rever. Tenho um numero de telemovel, teu, mas se calhar antigo
 Ligo, vai para o "voice mail". Tu fazes parte da mítica galeria dos meus heróis, tu e todos os bravos soldados condutores autorrodas que passaram pela Guiné, a começar pela nossa CCAÇ 2590/CCAÇ 12.

Eu dizia-te que era preciso ser maluco para conduzir uma GMC. Tu ofendias-te: eras o mais profissional dos nossos condutores auto. Não sei porque não chegaste a 1º cabo: eras  profissional de pesados já na vida civil. E continuaste  depois, na peluda, com uma empresa tua, se não erro. Mas eu sentia que a  porrada te magoara muito, mexera como teu brio, a tua autoestima. 

Reencontei-te em 1994, em Fão, Esposende, quando a malta de Bambadinca (CCS/BCAÇ 2852, 1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) se juntou pela primeira vez. Inicialmnete, vivias em Porto Alto, Samora Correia, Benavente. Depois mudaste a empresa para Aljubarrota, Batalha. Bate certo ? Perguntei ao Adélio Monteiro, mas também não sabe do teu atual paradeiro.

Mas voltando aos dias 17 e 18 de setembro de 1969... Há dias de sorte, escrevi eu: na vida, na guerra, no jogo, no amor… Recordo-me bem desta operação logística, Op Belo Dias II, em que perdemos uma heróica GMC do tempo da guerra da Coreia (daquelas que gastavam 100 aos 100, lembras-te ?).

Não sei se era lenda. As GMC andavam a gasolina, E tinham um depósito de 150 litros, com alcance operacional de c. 480 km e velocidade máxina de 72 km/hora. Em teoria, gastava pouco mais de 30 aos 100.  Mas picadas da Guiné, com carga e com guincho, é possível que gastasse o dobro ou até o triplo....O modelo era GMC 6x6 , caixa aberta, de 2 1/2 t, m/1952, do tempo da guerra da Coreia e herdeiro do célebre camião GMC CCKW , também conhecido como "Jimmy", o camião de transporte de carga do Exército Norte Americano  de que se produziram, entre 1941 e 1945,  572,5 mil unidades.

A CCAÇ  2590 / CCAÇ 12 tinha duas, foram vitimas de minas A/C. Tu, Dalot,  adoravas conduzi-las. Ninguém melhor do que tu para livrar uma GMC de cair na cratera de uma mina coberta de água da chuva ou de atolar-se na berma da estrada… Berma ? Estrada ? Qual berma, qual estrada!... Picadas cheias de minas e armadilhas!...

Ninguém melhor do que tu para conduzir este mamute de ferro, de 4 t, mais duas toneladas e meia, senão três,  de sacos de arroz… Ninguém melhor do que tu, enfim, para desatascar outras viaturas, civis ou militares,  à força de guincho. 

Só não tinhas faro era para as minas, que isso era tarefa dos picadores. Aliás, na galeria dos heróis desta guerra (há sempre heróis em todas as guerras), eu poria também as GMC, os condutores das GMC e os picadores…

O que aconteceu exactamente nesse já longíquo dia 18 de Setembro de 1969 ? Tínhamos saído, na véspera, de Bambadinca, de manhã muito cedo, como de costume, para fugir ao inferno do calor e da humidade do dia. E da poeira, embora se  estivesse em plena época das chuvas. Era um enorme coluna de viaturas militares carregadas de abastecimentos  para três companhias, unidades de quadrícula, em Mansambo (CART 2339), Xitole (CART 2413) e Saltinho (CAÇ 2406).

Ao todo viviam nestas unidades e seus destacamentos mais de  meio milhar de homens, fora a população local e as milícias que dependiam  inteiramente (caso de Mansambo, aquartelamento que fora construído de raíz e não tinha tabanca nem campos de cultivo...) dos abastecimentos feitos pela tropa. 

Nós levávamos-lhes praticamente tudo, até o correio.... Ou seja: o gasóleo (para as viaturas e o gerador eléctrico), o petróleo (para os frigoríficos), o arroz, a massa, o feijão, a carne, o bacalhau, o azeite, o vinho, as latas de conserva, as bolachas, as batatas, as bebidas em garrafa e em lata, os artigos de cantiga, e os demais mantimentos para um mês ou um mês e meio. Além dos cunhetes de munições, as granadas de morteiro, bazuca e obus, os materiais de construção, os sacos de cimento, etc.

Um dia seria interessante publicar a lista completa dos artigos e as respectivas quantidades que faziam parte dos nossos comboios de reabastecimento. Na galeria dos heróis desta guerra também estão os que alimentavam o nosso ventre insaciável , os homens da manutenção militar e os que faziam chegar os mantimentos, desde Bissau em LDG até ao Xime (no caso da Zona Leste) e depois daí em colunas até às sedes de sector ou comando operacional (Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego…). Ou através dos "barcos turras" que chegavam a Bambadinca. 

Era um comboio com várias dezenas de viaturas, incluimdo viaturas civis, de comerciantes de Bambadinca, Bafatá, Galomaro, Xitole, o Rendeiro, o Regala, o Jamil, as casas comerciais de Bafatá. como a Gouveia. As Berliet e as GMC (e, mais tarde,  as camionetas civis, já no decurso da Op Belo Dia III, em novembro de 1969) transportavam a carga, mas o condutor levava sempre escolta (menos de uma secção).

Para se chegar a qualquer uma das unidades acima referidas não havia mais nenhuma alternativa (terrestre). A estrada de Galomaro-Saltinho estava interdita, pelo que as NT ali colocadas dependiam do abastecimento feito a partir de Bambadinca. No entanto, a própria estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole estivera interdita entre Novembro de 1968 e Agosto de 1969 (*). 

O Op Belo Dia, a 4 de Agosto, já aqui sumariamente descrita (*),  destinou-se justamente a reabrir esse troço fundamental para as ligações do comando do sector L1 com as suas subunidades de quadrícula a sul. Um mês e tal depois fez-se uma segunda operação para novo reabastecimento, patrulhamento ofensivo e reconhecimento, a Op Belo Dia II.

2. São as peripécias dessa operação (Op Belo Dia II) que se relatam aqui. Mas ainda a propósito de meios de transporte, convirá referir que só Bambadinca possuía uma pista, com cerca de 150 metros, permitindo a aterragem de aeronaves como a Dornier, a DO-27.

No meu tempo o sargento piloto Honório, cabo-verdiano, era uma figura muito popular entre as NT, porque nos trazia o correio e alguns frescos. A sua fama era lendária, pela sua coragem e destreza, para não dizer "maluqueira" (, tolerada, mas não apreciada pelos outros pilotos da BA 12, em Bissalanca)... Era capaz de aterrar numa nesga de terra, dizia-se.  Em Mansambo só havia heliporto. No Xitole, também havia pista para avionetas.

De qualquer modo, o helicóptero, o AL III, só era usado para fins estritamente militares: apoio de helicanhão, transporte de tropas especiais e heliassaltos, evacuações Y para o hospital militar de Bissau. Argumentava-se que o helicóptero era um luxo, custando 15 contos por hora (mais do o ordenado mensal de dois alferes)…

Em contrapartida, as colunas de abastecimento da guerrilha e das suas populações eram feitas por carregadores, a pé, descalços, em bicha de pirilau, incluindo mulheres e até crianças e muitas vezes sem escolta militar, correndo o risco de serem interceptados pelas NT, como acontecia com alguma frequência na região de Missirá, a norte do Rio Geba (como em Chicri, a 12 de Setembro de 1969: muitas vezes as NT não faziam a distinção entre combatentes, armados, e elementos civis da população controlada pelo PAIGC que servia de carregadores; neste caso, levavam artigos comprados nas nossas barbas, em Bambadinca, onde só havia duas lojas, nas mãos de tugas, a loja do Rendeiro e a loja do Zé Maria)…

Porquê falar em sorte ? É que eu ia justamente à frente da viatura que accionou a mina, a tua vitura,a tua GMC,  Dalot. E ia justamente do lado do pendura, com uma perna de fora… À turista, como quem vai num alegre e matinal safari algures num parque no Quénia… Em suma, ia no "lugar do morto"... 

A pouco e pouco, o periquito ia ganhando confiança… Com três meses e meio de Guiné, e baptismo de fogo ainda muito recente (na Op Pato Real, a 7 de Setembro, na região do Xime, Ponta do Inglês)  considerava-me já quase um "veterano"…

Recordo-me da viatura em que eu ía: um Unimog 404… Apesar da relativa tranquilidade que nos davam a experiente equipa de 12 picadores que iam à nossa frente com dois grupos de combate apeados, a proteger os flancos, eu tinha recomendado ao condutor do Unimog (, já não me lembro o nome: o Adélio Monteiro não  era, vinha mais atrás ) que seguisse milimetricamente o rodado da viatura da frente… Um desvio de um milímetro podia ser fatal para o artista… Tu, Dalot, que  atrás de mim,  levavas um bicho que tinha dez rodas, dois rodados duplos atrás, e sete toneladas de ferro e arroz...

Daquela vez vez foste tu, Dalot,  e a tua GMC que voaram… Eu fiquei para a próxima, já lá mais para o fim da comissão, em 13 de janeiro de 1971, em Nhabijões... Também numa GMC!... Era a minha sina!...

A estrada (se é que se podia chamar estrada aquilo!), invadida pela floresta (, apesar da  desmatação recente, em abril/maio de 1969, Op Cabeça Rapada), as bolanhas, os curso de água, os charcos, etc. era mais estreita que as viaturas em certos pontos… Uma delícia para os sapadores do PAIGC, um quebra-cabeça para os nossos picadores, um stresse desgraçado para aqueles de nós que faziam guarda de flancos ou que iam em cima das viatura, ou os que conduiam as viaturas…

Em suma, gastávamos uma boa parte da nossa energia mensal a abastecer-nos uns aos outros em vez de fazer a guerra ao IN…

Estamos a falar da segunda quinzena de setembro de 1969, em que realizámos  mais outra operação a nível de batalhão afim de escoltar uma coluna logística do BCAÇ 2852 para as companhias de Xitole e Saltinho (Op Belo Dia II). Uma operação com 2 destacamentos (A e B) (*)

Dois Gr Comb [Grupos de Combate] da CCAÇ 12 (2º e 3º), um da CART 2339 [Mansambo] e o Pel Caç Nat 53 (que seguiria depois com o Dest B para o Saltinho) formavam o Dest [Destacamento] A,  cuja missão, além da picagem do itinerário, era escoltar a coluna até ao limite da ZA-Zona de Acção da CART 2339 [Mansambo] onde se efectuaria o transbordo da carga para outra coluna da CART 2413 [Xitole].

A coluna que chegou a Mansambo às 17.30 do dia 17 de Setembro, proveniente de Bambadinca, donde saira de manhã (longas horas inteiro para se fazer 18 km), prosseguiria no dia seguinte, tendo-se processado sem incidentes de maior até à ponte do Rio Jago, a cerca de 3 km do aquartelamento de Mansambo, altura em que se fez um alto para recompor a carga da viatura que seguia em 3º lugar. Passámos a noite nos "bunckers" de Mansambo.

Ao retomar-se a marcha, o rodado intermédio direito da GMC do Dalot (MG-17-21) que vinha imediatamente a seguir àquela, e que pertencia à CCAÇ 12, accionou uma mina A/C (anticarro) reforçada, tendo-se voltado espectacularmente. A viatura ficou muito danificada, tendo-se inutilizado parte da sua carga de 3 mil kg de arroz. Em virtude de ter sido projectado, ficou gravemente ferido um 1º cabo do Pel Caç Nat 53. O condutor da GMC, o soldado Dalot, saiu ileso.

A mina não fora detectada pela equipa de 12 picadores, seguida de 2 Gr Comb que progrediam na frente.

Alguns quilómetros à frente, junto à ponte do Rio Bissari foram detectadas e levantadas mais 3 minas (A/P) que deveriam fazer parte do campo de minas implantado pelo IN posteriormente à Op Belo Dia I, e das quais 7 já sido levantadas até então.

Pelas 13h do dia 18 de Setembro deu-se finalmente o encontro dos 2 Dest, tendo-se procedido ao transbordo da carga.

No regresso a coluna foi sobrevoada várias vezes por uma parelha de Fiat G-91 cujo apoio estava previsto na ordem de operações. Mansambo foi atingido pelas 17 h do dia 18, depois de se ter armadilhado a viatura cuja remoção se verificou ser impossível com os meios disponíveis na ocasião.

Inconsolável, tu, Dalot, lá deixaste  a tua querida GMC, de matrícula MG-17-21... A Guiné era um  cemitério de sucata, como viaturas (militares e civis) abandonadas pelas NT, destruídas por minas e roquetadas... Não tenho a certeza se esta viatura foi posteriormente desarmadilhada e rebocada para Bambadinca... Os custos de uma tal operação eram sempre elevados.

Onde quer que estejas, camarada Dalot (e eu espero bem que estejas vivo e de boa saúde), desejo-te as maiores felicidades possíveis e, já  agora um Natal quentinho, livre da Covid-19. Telefona-me para o 931 415 277. Teu camarada, Henriques.  (**)

As minhas felicitações natalícias são extensivas aos demais condutores autorrodas, todas eles gente brava,  da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 que viajaram comigo no T/T Niassa, de 24 a 29 de maio de 1969, de Lisboa com destino a Bissau. Alguns infelizmente já não estão vivos. A lista é antiga (e tem de ser revista). Acrescento também os mecânicos auto:

1º Cabo Cond Auto Luís Jorge M.S. Monteiro [, vivia em Vila do Conde ou Porto ?];

Sold Condutor Auto António S. Fernandes [, morada actual desconhecida];

Sold Cond Auto Manuel J. P. Bastos [, morada actual desconhecida];

Sold Cond Auto Manuel da Costa Soares [, morto em, mina A/C,em Nhabijões, em 13/1/1971];

Sold Cond Auto Alcino Carvalho Braga [, vive em Lisboa];

Sold Cond Auto Adélio Gonçalves Monteiro [, comerciante, Castro Daire; é membro da nossa Tabanca Grande];

Sold Cond Auto João Dias Vieira [ vive em Vila de Souto, Viseu];

Sold Cond Auto Tibério Gomes da Rocha [, vivia em Viseu, faleceu em 6/12/2007;

Sold Cond Auto António S. Fernandes [, morada actual desconhecida];

Sold Cond Auto Francisco A. M. Patronilho [, vive em Brejos de Azeitão];

Sold Cond Auto Manuel S. Almeida [, morada actual desconhecida];

Sold Cond Auto António C. Gomes [, morada actual desconhecida];

Sold Cond Auto Fernando S. Curto [, vive em Vagos];

Sold Cond Auto Aniceto Rodrigues da Silva [,falecido em 3/1/2021;  membro a título póstumo da nossa Tabanca Grande];

Sold Cond Auto Manuel G. Reis [, morada actual desconhecida];

Fur Mil MAR Joaquim Moreira Gomes [, vive em Esposende ou Maia ?];

1º Cabo Mec Auto Renato B. Semedeiros  [, vivia na Reboleira, Amadora];

1º Cabo Mec Auto António Alves Mexia [, morada actual desconhecida];

Sold Mec Auto Gaudêncio Machado Pinto [, morada actual desconhecida].




Guiné > Região de Bafatá  > Algures > 1973 > Uma Daimler, avariada, é levada em cima de uma GMC... Sítio ? Talvez Bambadinca, talvez Bafatá, junto ao Rio Geba... quando o João Carvalho veio de férias à metrópole, vindo de Canjadude, Gabu, onde estava aquartelaad a sua CCAÇ 5.  (Em 1971, no CTIG havia pouco mais de duas centenas e meia de GMC, das quais praticamente metade estavam inoperacionais... E das 108 Daimlers existentes, 75% estavam inoperacionais.

Foto (e legenda): © João Carvalho (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné> Região de Bafyá > Sector L1 (Bambadinca) > Carta do Xime (1961) > Escala: 1/50 mil > Troço da Estrada de Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho> Assinalada, com um círculo a azul, a ponte do Rio Jago onde a GMC MG-17-21, conduzida pelo Dalpot,  com 3 toneladas de arroz, accionou uma mina anticarro, no dia 18 de Setembro de 1969. O quartel de Mansambo vem sinalizado com um retângulo.

A distância de Bambadinca, a Mansambo, Ponte dos Fulas, Xitole e Saltinho era, respectivamente, 18, 33, 35 e 55 quilómetros. As colunas logísticas, de reabastecimento, podiam levar um dia ou até mais (na época das chuvas) a fazer este percurso perigoso, npomeadamete o troço Mansambo-Xitole   (interdito entre Novembro de 1968 e Agosto de 1969 ). A CCAÇ 12 participou em diversas colunas logísticas a Mansambo, Xitole e Saltinho (junto ao Corubal) e mesmo Gondomar. (*)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2021)

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Notas do editor: L.G.

Vd. também poste de 20 de maio de  2005 > Guiné 63/74 - P22: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho (Luís Graça)

(...) Desde Novembro de 1968 que o itinerário Mansambo-Xitole estava interdito. Nessa altura, uma coluna logística do BCAÇ 2852, no regresso a Bambadinca, sofrera duas emboscadas (uma das quais, a primeira, com mina comandada), a cerca de 2km da Ponte dos Fulas, na zona de acção da unidade de quadrícula aquartelada no Xitole (CART 2413). A coluna prosseguiu com apoio aéreo.

Nove meses depois, fez-se a abertura desse itinerário, mais exactamente a 4 de Agosto de 1969. Na Op Belo Dia, participou o 2º Gr Comb da CCAÇ 12 com forças da CART 2339 (Mansambo), formando o Destacamento A. (...)